sexta-feira, 21 de julho de 2017

Vista aérea da cidade de São Cristóvão

Fonte: SECOM.
Reproduzida do site: infonet.com.br/noticias/cultura

Cidade Histórica de São Cristóvão

Foto: Bruno Silva (@sj_bruno).
Reproduzida da Fan Page/Facebook/Governo de Sergipe.

Lagoa Azul, Praia do Abaís, no município de Estância

Foto: Deverton Santana (@devertonsantana).
Reproduzida da Fan Page/Facebook/Governo de Sergipe.

Cícero Alves dos Santos, mais conhecido como Véio

O consagrado artista sergipano Cícero Alves dos Santos, mais conhecido como Véio,
foi premiado no Prêmio Itaú Cultural na categoria CRIAR.
Foto: Kadydja Albuquerque.
 Reproduzida do Facebook/Governo de Sergipe.

Biografia.

Cicero Alves dos Santos (1948, Nossa Senhora da Glória, Sergipe). Escultor. O apelido vem de sua preferência desde a infância de estar com pessoas mais velhas para ouvir suas histórias. Autodidata, se interessa desde o início de seus trabalhos pelo universo do folclore nordestino e pela vida dos sertanejos.

Após utilizar a cera de abelha e o barro como materiais para as primeiras experiências com a escultura, o artista dedica-se ao uso da madeira como matéria-prima de seus trabalhos, aproveitadas de derrubadas e loteamentos abertos nas matas de Sergipe, que iriam ser descartadas. Além disso, parte da renda obtida com a venda de suas obras são destinadas a preservação da mata local.

Além de ter os costumes e a cultura sertaneja como temas centrais de sua obra, uma característica marcante é o longo comprimento das pernas e dos braços das esculturas.

Ao lado de sua casa, o escultor cria o Sítio Soarte (Museu do Sertão), onde recria o modo de vida sertanejo através de obras como A Casa de Farinha, A Casa de Profissões e Igreja. No Sítio, suas obras ficam expostas ao ar livre, sob os efeitos do sol e da chuva, por escolha do escultor que acredita que as peças não devem ser preservadas para a posteridade - o sítio é um ambiente os as peças nascem e morrem, segundo Veio.

Véio tem obras em diferentes acervos como a Pinacoteca do Estado de São Paulo (Pina), o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) e o Museu de Arte do Rio (MAR). Participa de exposições nacionais e internacionais como a mostra coletiva Teimosia da Imaginação (2012), no Instituto Tomie Ohtake e da 56ª Bienal de Veneza, na Itália (2014).

Segundo o crítico de arte Rodrigo Naves, Véio fez da preservação da memória de seu povo a razão de sua existência, em um ambiente tão dinâmico, proporcionado pelas famosas feiras da região, o artista é criador de uma categoria diferente de arte, que mistura a “arte popular” com cores fortes e industriais, distantes da natureza.

Em 2016, realiza a exposição Cícero Alves dos Santos: Véio, organizada pelo Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, na Galeria Estação, em São Paulo.

Texto reproduzido do site: enciclopedia.itaucultural.org.br

As cores do período junino pelo olhar da Laila Gardênia

Foto: Laila Gardênia (@lailagardenia).
Reproduzida da Fan Page/Facebook/Governo de Sergipe.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Antiga foto da Praia de Atalaia, em Aracaju

Imagem de arquivo: Jornal de Sergipe/Prefeitura Municipal de Aracaju/Revista Aracaju.
Reproduzida do blog: aracajusaudade.blogspot.com.br
Do Professor Eudo Robson.

Antiga foto aérea da Avenida Beira Mar, em Aracaju

Vista aérea de trecho da antiga Rodovia Governador Paulo Barreto de Menezes, 
hoje Avenida Beira Mar, ladeada pelo Rio Poxim e  Parque 
  Augusto Franco, mais conhecido como Parque da Sementeira.
Imagem de arquivo: Jornal de Sergipe/Prefeitura Municipal de Aracaju/Revista Aracaju.
Reproduzida do blog: aracajusaudade.blogspot.com.br
Do Professor Eudo Robson.

Antigas fotos do Calçadão da Rua Laranjeiras, em Aracaju


Imagens de arquivo: Jornal de Sergipe/Prefeitura Municipal de Aracaju/Revista Aracaju.
Reproduzidas do blog: aracajusaudade.blogspot.com.br
Do Professor Eudo Robson.

Praça no município de Boquim

Foto reproduzida do site: nenoticias.com.br

Academia de Cordel pretende fortalecer literatura de SE

Cordelistas Izabel Nascimento e Maria Salete Nascimento.
Foto: Divulgação.

Academia Sergipana de Cordel será composta por 37 cadeiras.
Foto: Divulgação.

Almir Ribeiro, um dos cordeslitas que serão empossados. 
Foto: Portal Infonet.

Solenidade ocorreu no Museu da Gente Sergipana.
Foto: divulgação.

Publicado originalmente no Portal Infonet, em 19/07/2017.

Academia de Cordel pretende fortalecer literatura de SE.

Academia Sergipana de Cordel será composta por 37 cadeiras.

Cordelistas, escritores, poetas e amantes da literatura se reuniram na noite desta quarta-feira, 19, para a cerimônia de instalação da Academia Sergipana de Cordel (ASC).

A Academia Sergipana de Cordel já chega com uma importante missão: valorizar a literatura cordelista e consagrá-la como marco na história de Sergipe.  “Hoje é um dia de marco na história do cordel em Sergipe, pois 19 de julho é o Dia do Cordelista. Faremos uma homenagem à José Firmino Cabral, referência do cordel no Brasil e no mundo, que será nosso patrono. Todos que serão empossados beberam da fonte cultural que ele deixou e um dos nossos compromissos é eternizar a memória de José Firmino, assim como o trabalho de todos os cordelistas de Sergipe”, comenta a pedagoga e cordelista Izabel Nascimento, que é presidente da ASC.

A Academia de Cordel terá 37 cadeiras. Uma delas é a do cordelista Almir Ribeiro. “O Cordel sempre esteve no seio povo, mas ficou um pouco apagado. Com a presença da academia, acredito que o cordel vai ganhar força e ser doutor”, opina.

A solenidade de instalação da Academia Sergipana de Cordel ocorreu no Museu da Gente Sergipana. O evento contou com a declamação de cordelistas e apresentação do grupo Vocal Vivace.

Por Verlane Estácio.

Texto reproduzidos do site: infonet.com.br

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Tradição e modernidade: Dois lados da moeda...

 Tradição e modernidade são tema de debate sobre festas juninas (Foto: Pritty Reis).

 Amorosa defende os interesses dos artistas nordestinos.

Paulo Corrêa responsabiliza o empresariado por induzir gostos à audiência.

Publicado originalmente no site do jornal Cinform, em 14 de julho de 2017. 

Tradição e modernidade: Dois lados da moeda, numa das festas mais populares do nordeste.

Por Nayara Arêdes
    
Classe artística discute a possibilidade de equilíbrio entre elementos típicos e incorporação de novas influências no São João

O mês de junho já está indo embora, e, com ele, os festejos de São João. Ainda assim, as discussões sobre a configuração da festa permanecem. A cada ano, as atrações típicas nordestinas vêm perdendo espaço para artistas de outros estados. Assim, o forró vai sendo jogado para escanteio, enquanto ritmos como o sertanejo e o arrocha vão ganhando os palcos, praças e multidões.

A mudança das festas juninas não acontece apenas em relação às atrações musicais. As próprias quadrilhas vêm alterando sua forma de se apresentar, movimentando-se em direção às disputas cada vez mais acirradas em concursos e competições. Mas nem todos os públicos estão satisfeitos com essa modernização dos festejos. Há quem veja a chegada e o fortalecimento de novas influências como um passo em direção ao apagamento das tradições.

Ao mesmo tempo, muita gente acredita que os artistas e elementos que vem ganhando terreno nas festas de alguns anos para cá são responsáveis por atrair novos públicos, sobretudo os mais jovens. Para discutir essas questões e indagar até que ponto vão a tradição e a modernidade, o Olho Vivo traz a opinião de quem acompanha os festejos de perto, pelo lado de dentro.

Polêmica. 

O debate sobre o tradicional e o novo nas festas juninas estampou manchetes nas últimas semanas, após uma contenda envolvendo as cantoras Elba Ramalho e Marília Mendonça. Enquanto Elba reivindicou espaço para os artistas nordestinos e suas músicas típicas, Marília argumentou que o festejo deve estar aberto a todos os tipos de música.

Defendendo a opinião de Elba Ramalho, dezenas de artistas e ativistas se uniram nas campanhas “Elba, estamos com você” e “Devolva meu São João”, com o intuito de resguardar a programação das festas promovidas pelo poder público. Em Sergipe, a cantora Amorosa é uma das maiores representantes das campanhas.

“Não sou contra o Sertanejo, até por que gosto de algumas canções. Sou contra o nítido desequilíbiro entre esse tipo de atração e aquelas que representam legitimamente a cultura nordestina. E isso passa pelo empresariado em concordância com alguns gestores. Existem atrações que só aceitam fazer parte da grade se puder inserir outras do grupo das suas empresas”, pontua Amorosa.

Rompimento. 

O pesquisador Paulo Corrêa, que estuda a música e a cultura nordestina, concorda com Amorosa. Ele afirma que o fato de as programações das festas juninas estarem preenchidas de atrações do Sertanejo e do chamado “forró elétrico” não representam uma de manda legítima do público. “Durante todo o ano, os empresários dos artistas sertanejos pagam as rádios e veículos de comunicação para executar suas músicas. Isso faz com que o autêntico forró perca audiência, pois induz gostos”, diz.

Para Amorosa, os representantes de outros estilos musicais devem ter espaço no São João, mas os artistas do forró devem ser priorizados. “Que se insiram elementos atrativos, mas dando às tradições seu destaque merecido. Não se dá a coroa ao visitante. Foram os forrozeiros que fizeram as festas juninas do Nordeste serem o que são. Agora, querem colocar no lugar deles quem nunca fez nada para que a cultura nordestina chegasse a um ponto de destaque”, diz.

Paulo Corrêa recorda o caso de Campina Grande – PB, uma das maiores festas de São João do Brasil. “Na programação oficial, 90% das atrações é de ritmos estranhos à cultura nordestina. Até mesmo alguns artistas que se intitulam forrozeiros, na verdade fazem uma mistura de lambada, arrocha e músicas românticas. Isso é um desserviço, por que as novas gerações acabam tomando esse estilo por referência ao falar de forró”, ilustra.

Novas influências.

O cantor Edu Guerra, representante do Sertanejo em Sergipe, contrapõe a visão de Amorosa e de Paulo. Para ele, independentemente do estilo, a festa junina é local de celebração da música. “Acredito que a influência sertaneja e de outros ritmos no São João não tira a essência da festa. Só quem tem a ganhar é o público e a música popular

Para o cantor, a presença do Sertanejo nas festas juninas é um ponto positivo pelo fato de atrair o público mais novo. “O estilo que a gente faz é para jovens e é bem aceito tanto em nosso Estado quanto no Brasil, já que a gente se espelha nos artistas nacionais”, diz. Nesse ponto, Amorosa contrapõe: “não existe festa velha, o que existe é u ma geração totalmente desconectada da cultura da qual faz parte”.

A conexão das novas gerações com a essência cultural de sua terra é um ponto de discussão também em se tratando das quadrilhas juninas. Para o bailarino Ewertton Nunes, que já atuou como juiz em alguns concursos de quadrilhas, a incorporação de novos elementos deve ser vista com bons olhos. “A cultura é dinâmica. Uma cultura que não se adapta, morre”, resume.

Herança. 

O bailarino pontua que as quadrilhas sergipanas reproduzem as características das danças em pares da corte francesa, onde a prática foi originada. Os elementos típicos da versão nordestina, como os vestidos de chita, o chapéu de palha, as camisas quadriculadas com remendos e a figura do matuto já não são mais presentes nas apresentações.

Joel Reis, presidente e marcador da quadrilha Século XX, considera que a inovação e a originalidade devem existir sempre. Ainda assim, discorda da grande influência que os artistas e elementos de outras regiões vem assumindo no São João nordestino. “Não concordo com misturas. Cada um deve ficar no seu espaço. Mês de junho é tempo de forró pé de serra, o resto fica para outros meses”, opina.

Ainda na visão de Ewertton, o mais importante no debate entre tradição e modernidade é a responsabilidade em relação às novas gerações. “Temo que nossas quadrilhas comecem a se apropriar de elementos que não são do nosso povo. As quadrilhas precisam ter consciência de que é por meio de suas práticas que as tradições vão ou não chegar às gerações mais recentes”, diz.

A indústria junina.

Há tempos que os pequenos arraiás no interior, com comidas típicas e fogueira na porta de casa, deixaram de ser referência no assunto São João. A festa transformou-se em um período de movimentação de grandes investimentos, configurando uma verdadeira indústria. Somente em Campina Grande, o investimento total para a realização do festejo de 2017 foi de R$ 13 milhões.

Em Caruaru – PE, a prefeitura prometeu reduzir o investimento de recursos próprios neste ano. Ainda assim, a quantia empregada pela gestão foi de ao menos R$ 3 milhões. Em Sergipe, mesmo reclamando da crise, várias prefeituras desembolsaram altos valores para bancar cachês de atrações nacionais. Enquanto isso, as atrações regionais amargam em posição secundária, mesmo sendo economicamente muito mais viáveis.

Texto e imagens reproduzidos do site: cinform.com.br

domingo, 16 de julho de 2017

sábado, 15 de julho de 2017

Carlos Gomes de Carvalho Leite morre aos 94 anos, em Aracaju

Carlos Gomes de Carvalho Leite (Foto: Arquivo familiar).

Publicado originalmente no site G1 SE., em 15/07/2017.

Carlos Gomes de Carvalho Leite morre aos 94 anos, em Aracaju

Ele ocupou o cargo de procurador geral da Justiça.

O procurador da Justiça aposentado, Carlos Gomes de Carvalho Leite, morreu na madrugada deste sábado (15), aos 94 anos, em um hospital particular da capital. Ele teve um agravamento de uma pneumonia com insuficiência respiratória.

O corpo é velado na OSAF, Rua Itaporanga, 436. O sepultamento será no cemitério Santa Izabel, entretanto, os familiares ainda não definiram horário.

Carlos Carvalho Leite ocupou o cargo de procurador geral da Justiça, no Governo de João Alves e secretário de segurança pública, no Governo de Paulo Barreto de Menezes. Em vida, foi reconhecido pelos valiosos serviços prestados à justiça sergipana.

Texto e imagem reproduzidos do sie: g1.globo.com

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Bairro 13 de Julho: uma História

Foto: Curva do Iate Clube, av. Beira Mar/Década de 50
Arquivo: Murilo Mellins.

Amâncio Cardoso, historiador e professor.

Publicado originalmente no site da PMA, em 08/03/2010 

Bairro 13 de Julho: uma História.
Por Amâncio Cardoso.

O território do bairro 13 de Julho passou por profundas transformações urbanísticas após 155 anos de fundação de Aracaju. Nesse sentido, vejamos algumas notícias, desde o século XIX até hoje, deste que ainda é um dos mais valorizados bairros de nossa capital.

Antigo arrabalde denominado de Ilha dos Bois, a área foi vendida ao Governo Imperial pelo sitiante José Honório dos Santos, em 1872. Até onde se sabe, este é o registro mais recuado que se tem do local. O governo pretendia construir ali um lazareto - abrigo para controle sanitário, onde são mantidas pessoas supostas ou portadoras de moléstias epidêmicas, como cólera e varíola que grassaram no século XIX.

No entanto, o estabelecimento não foi construído. Porém, o nome do lugar ficou também conhecido por Sítio da Nação, devido à aquisição do Poder Central. No final do século XIX, por ser região ribeirinha, o subúrbio começou a ser povoado por marujos e pescadores que, habitando em casas de palha, tiravam o sustento da família explorando a perigosa barra do Cotinguiba (antigo nome do rio Sergipe).

No início do século XX, os banhos de praia com águas salgadas começaram a se popularizar como lazer. Dessa maneira, o lugar recebe um novo topônimo: Praia Formosa. A beleza talvez se devesse ao encontro da barra do Sergipe com a foz do riacho Tramandaí, conhecida como Quatro Bocas; além de ser um local ermo, de areias alvas e águas limpas à época.

Tramandaí é topônimo de origem indígena com três possíveis significados: para alguns estudiosos, rio sinuoso; para outros, rio de peixes; ou ainda, rio que se pesca com rede. Esta última acepção é compatível com a cultura piscosa que até hoje resiste no lugar. Numa pracinha da curva do Iate, ainda se observa a arte de confeccionar redes por pacientes pescadores.

Em 13 de julho de 1924, na paradisíaca Praia Formosa, tropas rebeladas do Exército se entrincheiraram e minaram a barra à espera de possíveis forças legais que ameaçariam os rebeldes tenentes. Este episódio está ligado ao movimento tenentista estudado nos livros de História do Brasil, durante a Republica Velha (1889-1930). Desde 1922, eclodiram no país diversas revoltas dos quartéis em oposição ao regime oligárquico dos fazendeiros do Sul e Sudeste, e dos coronéis no Nordeste.

Uma destas insurreições militares ocorreu em Sergipe no dia 13 de julho de 1924, quando a cidade foi tomada pelos tenentes e alguns civis, sob a liderança, entre outros, de Augusto Maynard Gomes (1886-1957). Eles formaram uma Junta Governativa militar e prenderam o então presidente do Estado (equivalente a governador) Graccho Cardoso (1874-1950).

Aracaju ficou em clima de guerra durante 21 dias. Logo depois, os jovens militares e demais participantes, que representavam os anseios dos estratos médios da população urbana, foram presos e punidos. As revoltas tenentistas marcaram sobremaneira a História política nacional e local entre 1922 e 1930; simbolizadas no atual nome do nosso bairro.

Em outubro de 1930, numa reviravolta política, os antigos tenentes ascenderam ao poder em nível nacional, após a denominada Revolução sob liderança de Getúlio Vargas (1883-1954). Então, em 27 de novembro daquele ano, instituiu-se através do ato municipal nº 11 a mudança, mais uma vez, de topônimo do nosso memorável bairro: de Praia Formosa para 13 de Julho. Homenagem dos representantes do governo revolucionário ao levante dos tenentes naquele local, dia e mês de 1924.

Um dia antes da assinatura do ato municipal para a mudança de topônimo, o antigo tenente rebelado e depois general Maynard, havia tomado posse como Interventor (governador nomeado pelo presidente) de Vargas no Estado até 1935, num primeiro mandato. Donde se explica a imediata instituição para marcar o 13 de Julho na memória sergipana.

Em 1931, o incipiente bairro 13 de Julho já possuía quase 80 casas de palha e poucas de telhas. Eram os primeiros veranistas juntando-se aos nativos pescadores. Neste mesmo ano, ruas foram abertas, tais como a Raimundo Fonseca e Júlio de Santana, ainda existentes. A primeira, pelo fato de possuir um solo lamacento, por conta da formação de manguezais, era chamada pelo povo através do pitoresco nome de rua do "Caga em Pé", tornando-se impossível a postura de cócoras para uma eventual necessidade fisiológica.

Uma outra rua que marcou o imaginário coletivo foi a que levava o não menos expressivo nome de "Cu Tapado" - atual José Sotero, assim chamada por não ter saída à época. Outra via de antanho no bairro 13 de Julho é a curva do Carvão, depois chamada do Inflamável; pois ali funcionava um depósito de venda de querosene e outros combustíveis. Hoje, é a famosa curva do Iate Clube.

Para iluminar estas e outras ruas que surgiram ao longo do século XX, a luz elétrica chegou também em 1931. Nesse período, o acesso ao tradicional bairro foi facilitado com aterramentos e linhas de bondes elétricos. Assim, iniciava-se a moderna urbanização da área.

No ano de 1937, o bairro 13 de Julho perdeu seu prestígio de lazer praiano, certamente, após a construção da ponte do rio Poxim, a qual facilitou o acesso à praia de Atalaia. Desde então, paulatinamente, os aracajuanos substituíram o banho ribeirinho pelo oceânico. Além disso, nas últimas décadas, com a intensa ocupação imobiliária, rios e riachos que banham a área vêm servindo de esgotos sanitários, prejudicando a pesca e extinguindo o lazer balneário.

No dia 15 para 16 de agosto de 1942, ocorreu outro fato marcante também presenciado pelos moradores do bairro 13 de Julho. Foi a chegada a Aracaju dos sobreviventes dos três navios torpedeados pelos alemães em costas sergipanas durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Este episódio foi um dos estopins para a entrada do Brasil no conflito. Conforme um testemunho, os feridos iam chegando "macilentos, esfarrapados com a bestial tragédia refletida nos olhos cheios de espanto e angústia". Cerca de 500 (quinhentas) pessoas faleceram e os corpos começaram, então, a aparecerem em nossas praias.

Passados mais de sessenta anos, o bairro 13 de Julho é lembrado por se destacar como um dos cartões postais de Aracaju. Não obstante tenha sido cenário de revoltas e tragédias, e possua canais poluídos, seu calçadão, onde citadinos tomam água de coco, fazem caminhadas e brincam o Pré-Caju (festa carnavalesca); seus tradicionais bares e requintados restaurantes; seus prédios e equipamentos urbanos e culturais - como a Biblioteca Pública Epifânio Dória e o Iate Clube, entre outros - fazem do 13 de Julho um dos mais aprazíveis e funcionais bairros de nossa capital.

Para saber mais:

- BARRETO, Luiz Antonio. Pequeno dicionário prático de nomes e denominações de Aracaju. Aracaju: Itebec/Banese, 2002.
- CABRAL, Mário. Roteiro de Aracaju. 3 ed. Aracaju: Banese, 2001.
- DANTAS, José Ibarê Costa. O Tenentismo em Sergipe - da Revolta de 1924 à Revolução de 1930. 2 ed. Aracaju: J. Andrade, 1999.
- PORTO, Fernando de Figueiredo. Alguns nomes antigos do Aracaju. Aracaju: J. Andrade, 2003.

- MELINS, Murilo. Aracaju que vi e vivi. 2 ed. Aracaju: J. Andrade, 2004.

Texto e imagens reproduzidos do site: aracaju.se.gov.br

terça-feira, 11 de julho de 2017

No caminho das estrelas


Publicado originalmente no Facebook/Marcos Cardoso, em 7 de julho de 2017.

No caminho das estrelas.
Por Marcos Cardoso.

Dizem que os pioneiros do turismo como o conhecemos hoje eram beatos que no século IX organizaram as primeiras excursões pagas para visitar a tumba de Santiago de Compostela, no que depois se tornaram os venerados e frequentados Caminhos de Santiago, rumo à capital da Galícia espanhola.

Canindé de São Francisco foi a Compostela de Silvinha de Oliveira. Ali ela percebeu que as belezas naturais, a intervenção humana e a história impregnada do sangue sertanejo são atrativos tão interessantes para os viajantes quanto os supostos restos mortais de São Tiago, apóstolo de Cristo, o são para os visitantes do mundo inteiro que acorrem àquele canto atlântico da Espanha.

Silvinha desbravou os caminhos para a Canindé banhada pelo abençoado Velho Chico, com seu cânion tão plástico, seus sítios arqueológicos, suas rotas cangaceiras, caatinga, hidrelétrica, águas e céu. E ser humano! Porque ela enxergava que o turismo deve interferir o mínimo possível no meio ambiente e não se faz atropelando histórias de vidas.

Competente profissional como jornalista e como guia de turismo, Silvinha mantinha uma visão holística do objeto do seu trabalho. Uma das suas melhores qualidades era a generosidade que a fazia enxergar que sem o homem e a mulher não haveria o todo integrado. Sem as mãos que tecem não há o artesanato, sem o suor no campo não há os frutos e os quitutes tão apreciados pelos eternamente embasbacados turistas.

Aonde ia, Silvinha transportava mais do que paisagens. Levava o seu povo atrás. Inventou a noite sergipana na europeia Gramado, onde não dispensava as rendas, as comidas típicas e o forró, sempre acompanhados das rendeiras, das cozinheiras, do trio nordestino. O nosso povo. E emplacou esse conjunto natural e humano na novela global “Cordel Encantado”, sucesso de público e crítica além-região.

Com sua generosidade, estava sempre “inventando” um restaurante novo, uma goiabada e um queijo com sabor da terra, um passeio diferente, uma nova história para contar. Ela adorava contar histórias simples das pessoas comuns.

E esse contato com as pessoas e os lugares era a força motriz do seu trabalho, energia vital que a mantinha sempre sorrindo, apesar das adversidades. Com o apoio incondicional e sincero do amado Silva Júnior, companheiro na profissão e na vida, Silvinha lutou contra a doença terrível como aquele viajante experimentado e confiante que sempre pegava a estrada crente de que o destino o traria de volta, como sempre acontecia, mas que num dia fatídico foi traído por um acidente no caminho.

Ela saía da sua Compostela e pegava a Rota do Sertão certa de que logo trilharia o caminho de volta. Numa sexta-feira, 8 de junho de 2012, não voltou. Todos aqueles que foram ajudados por ela, que a conheceram ou apenas sabiam da sua existência lamentaram a morte prematura de uma mulher que ainda tinha tantos lugares e sonhos a percorrer. Mas consolam-se na esperança de que Silvinha, cidadã do mundo, inventou um novo caminho, dessa vez rumo às estrelas.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Marcos Cardoso.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Erosão e Sedimentação na Foz do Rio São Francisco

Foto: Márcio Fernandes - Estadão.

Publicado originalmente pelo blog Ferdinando de Sousa, em 2 de junho de 2017.
         
Erosão e Sedimentação na Foz do Rio São Francisco.
Por Ferdinando de Sousa.

Tecnicamente falando, a foz do Rio São Francisco é considerada um delta – um conjunto de sedimentos formado pelos materiais trazidos pelas correntes do Rio ao longo do tempo. Os sedimentos carregados e acumulados constantemente pelas águas fluviais são erodidos pelas correntes marinhas, mantendo o ambiente em equilíbrio. Ambientes deltáticos são complexos e multifacetados, apresentando ambientes característicos: águas fluviais e marinhas; lagoas, pântanos e planícies inundáveis; praias, mangues e matas, entre outros. O equilíbrio entre as forças do mar e do rio está no centro da vida de um delta.

Na foz do São Francisco, com a redução dos caudais do Rio, esse equilíbrio foi comprometido e a erosão do delta tem crescido em ritmo acelerado, com as águas salinas avançando ferozmente terra adentro. A redução da vazão do Rio São Francisco, que estamos comentando há algumas postagens, tem ocasionado uma redução da força das águas do rio contra o mar, o que tem impedido o transporte e acúmulo de sedimentos na região do delta; sem a reposição dos sedimentos perdidos para a erosão marinha, a linha de costa é cada vez mais afetada pelas correntes marinhas, com as ondas impactando a costa com cada vez mais energia. Uma outra fonte de perda de sedimentos nos depósitos do delta se dá pela força dos ventos, que carrega fragmentos de areia, silte e argila, e os espalha continente a dentro – o avanço das dunas na região de Piaçabuçu é o resultado deste processo. As areias já encobrem uma área total de 50 km², com dunas com mais de 30 metros de altura, que continuam avançando cada vez mais, para deleite dos turistas e preocupação para os moradores locais.

Um exemplo didático do avanço do mar contra a linha da costa na região da foz do Rio São Francisco pode ser verificado in situ, no local onde já existiu um antigo povoado de nome Cabeço, que pertencia ao município de Brejo Grande no lado sergipano da foz. Até 1997, Cabeço tinha aproximadamente 200 moradores, a maioria pescadores, contando com perto de 50 casas, uma igreja e uma escola. Nesta época, havia um farol marítimo nas proximidades do povoado, instalado num ponto distante 2 km do oceano. Com as alterações nos sistemas de correntes marítimas, as ondas passaram a avançar contra a linha da costa onde ficava o povoado, destruindo sistematicamente todas as construções. Só restou o antigo farol (vide foto) que mesmo inclinado continua a resistir bravamente ante o avanço do mar. Este farol está agora 300 metros mar adentro.

Esse notável avanço do mar coincide com a redução sistemática dos volumes de água do Rio São Francisco após a construção das barragens de Sobradinho, Paulo Afonso IV e Moxotó. Aqui é importante deixar um registro de cautela porque, apesar de todas as evidências, não é possível afirmar cientificamente que a construção dessas barragens seja a única causa dos processos de erosão na região do delta do Rio São Francisco – existem outros pontos do litoral brasileiro que sofrem processos erosivos semelhantes sem que haja interferência de barragens. Mas, como diz um antigo ditado, onde há fumaça há fogo.

Com o represamento das águas do São Francisco, uma parte importante dos sedimentos, que antes eram carregados pelas águas do Rio na direção da foz, passou a ficar retida nas barragens. Isso somado à redução dos caudais, muito provavelmente, desencadeou a desestabilização e a erosão dos bancos de sedimentos na região do delta, tendo como consequência uma alteração na dinâmica das correntes e marés, facilitando o avanço das ondas contra a linha de costa e a erosão das praias, a intrusão da água marinha no canal do Rio, a redução dos recursos pesqueiros, entre outros problemas já comentados.

As populações tradicionais que habitam a região e que historicamente sempre dependeram das águas do Rio são as que mais sentem os problemas no seu dia a dia. Estudos indicam que a atual produção de pescados (peixes nobres e camarões) é de apenas 1/10 do que era antes da construção das grandes barragens. Pescadores mais antigos falam da antiga fartura da pesca, quando grandes dourados, surubins e piaus sobrecarregavam as redes de pesca, garantindo uma ótima renda para as comunidades ribeirinhas.

Enquanto as autoridades e os cientistas debatem os problemas ambientais que assolam a foz do São Francisco, mais de 25 mil ribeirinhos e moradores da região sofrem diariamente e diretamente com a redução do volume dos pescados, com o abastecimento de água com níveis de sal até dez vezes acima do máximo tolerável em água potável, com problemas de navegação e com o uso das águas para a agricultura, com o avanço do mar contra a costa, entre outros problemas.

A vida na foz ou, se preferirem, no delta do Rio São Francisco está cada vez mais inviável para muita gente. Uma vida, cada vez mais, sem perspectivas.

Texto e imagem reproduzidos do blog: ferdinandodesousa.wordpress.com

Sede da Academia Sergipana de Letras, na arte de Adauto Machado

Tela de Adauto Machado, 2009 (Reproduzida do site: seer.ufs.br).

Quatro mulheres destacadas


Fotos reproduzidas do Google e postadas pelo blog 
"SERGIPE, sua terra e sua gente",  para ilustrar o presente artigo.

Publicado originalmente no Blog do Portal Infonet, em 30/10/2009.

Quatro mulheres destacadas.
Por Odilon Cabral Machado.

O noticiário desta última quinzena de outubro (2009) consternou a nossa sociedade com o falecimento de quatro grandes mulheres: Lígia Maynard Garcez (dia 20, aos 88 anos), Estelita Vilasboas (dia 21, aos 94 anos), Yeda Mesquita Matos Miranda (dia 24, aos 90 anos) e a notável Professora de História Maria Thetis Nunes (dia 25, aos 86 anos), mais que notável doutora em humanidades, de imorredoura saudade para uma vasta geração de alunos.

Quatro mulheres, todas longevas, cercadas por seus familiares, admiradores e amigos, a cidade lamentando a perda acontecida tornando mais pobre o nosso entorno pessoal e coletivo.

Se a Professora Thetis Nunes e a Sra. Lígia Maynard estão mais inseridas na História sergipana, uma como pesquisadora e historiógrafa, e a segunda vivendo muito destes mesmos feitos, sobretudo na primeira metade do século passado com os movimentos revolucionários tenentistas em terras áridas sergipanas, Dona Estelita leva consigo farta memória da ação educativa de gerações de alunos do Colégio Tobias Barreto, enquanto Dona Yeda muito testificou da vida e do esforço comercial de vasta geração de lojistas da Rua João Pessoa, o nosso atual calçadão.

Com Lígia Maynard Garcez, extingue-se um testemunho real, sofrido e vivido, dos feitos vibrantes de uma época em que o idealismo e a rebeldia da mocidade fizeram ferver o cenário político nacional.

Lígia, desde o nascimento, vivera e sofrera os revezes deste tempo, já bem longe, distante e criminosamente esquecido, afinal o seu pai, Augusto Maynard Gomes, um dos grandes revolucionários daquela época, talvez tenha sido o último herói sergipano, nascido nestas nossas estéreis areias, tão carentes de homens e de idéias. Mas para que precisarmos de heróis se um dramaturgo inteligente grasnou decepcionado; “Triste de um povo que precisa de heróis!”? Será que, até por conseqüência ou corolário, teria Bertolt Brecht achado a sinfonia “A Heróica” uma composição para surdos, ou uma tolice de Beethoven?

Mas, se o movimento tenentista já não enseja nem odes, nem hinos, e é hoje considerado um excedente de intolerância e autoritarismo, pelo menos tem servido para a pesquisa e a compilação de cientistas historiadores como Thetis, a professora que agora também nos deixou, legando-nos um exemplo dignificante em eficiência e honorabilidade, isenção e integridade. Exemplo que precisa ser lembrado e enaltecido desde a cova ainda aberta, a fim de que não resulte o esquecimento, que a tudo nivela e degrada.

E esta terraplanagem deletéria se faz maior quando o historiador, em hemiplegia mental e letal, refaz a história, num relato arrevessado, por mal intencionado, fazendo o vilão virar mocinho, o mártir restar cobarde e o herói findar bandido, sem falar de outros que não escrevem, mas contam boatos tornados fatos, por repetição de crueldade.

Porque uma coisa é fazer história, como Augusto Maynard de arma na mão e tombando ferido, e a filha Lígia que tudo viu e testemunhou, sentindo na pele a perseguição na coxia, quando o drama quase virara tragédia. E bem diferente é narrá-la ou interpretá-la, sobretudo com programas corretivos, tipo photoshop, que apagam e recompõem o filme, o documento, a foto e o dado testemunhal.

Venha a prova material em papiro, em cerâmica ou cartolina, em celulose, mídias magnéticas ou em difração ondulatória, a prova material sempre se reforça na comprovação testemunhal, um desafio, sobremodo, para a chamada “objetividade do eunuco”, segundo a qual se exige do historiador o tratamento do fato com isenção, distância e assepsia, evitando a contaminação ideológica que todos temos, e é muito bom possuí-la, desde que assumida e confessada.

E a prova testemunhal, aquela repetida aos curumins, ainda vale, sobretudo pelo velho grito do pajé; “Meninos, eu vi!” Mesmo porque, já nos tempos atuais e muito mais no futuro, até uma pesquisa em DNA de uma múmia poderá truncar e desvirtuar uma dinastia, gerar uma apostasia ou inserir um adultério por vitupério. Assim, eis mais uma razão para o cientista não desprezar a oitiva e a análise do relato testemunhal. Este é um ponto inicial e fundamental para a isenção de facciosismos ideológicos e partidários, evitando que a ciência, tão pura e desprovida de maldade, seja utilizada em banalização e fraude.

Felizmente isto não tem acontecido em nossas terras, e neste particular louve-se o trabalho notável do historiador Ibarê Dantas, uma referência viva, de integridade científica e alta honorabilidade intelectual, para fustigar os que gostam de desvirtuar e apagar os feitos e os mal feitos dos homens.

Mas a vida é assim mesmo, dirão em maioria. Feitos e fatos sempre serão encobertos pela erosão do tempo, igual à poeira que aridifica com silício, e a brisa marinha que a tudo oxida e corrói.

Mas não seria isso um desvio humano; o esquecer tudo sem separar o útil do fútil? E não é melhor assim, dirá expressiva maioria, que o tempo apague tudo, como missão do homem em superação sucessiva, o passado pelo presente e o futuro pelo que lhe vem na frente?

Como não professo tal regra indiferente, permitam-me persistir e ousar pensar diferente. Por isso volto ao mote do artigo que precisa ser longo: Acho que nesta última quinzena de outubro, com a morte destas testemunhas, Sergipe ficou menor ainda, sobretudo a nossa história, que resta mais refém da ignorância e das manipulações perigosas.

Mas se o futuro é progressivo e inexorável, não é assim, doloridamente sofrido e pranteado, que os homens enxergam mais ao longe, por apoiados nos gigantes fenecidos? Ou a vida deveria ser uma mera recapitulação como o queria o frade vilão, imaginado por Umberto Eco, que queimava as obras consideradas deletérias à sua doutrina, impedindo o livre pensamento sem peias de prejulgamentos e concepções mesquinhas?

Não! Longe de ser uma mera recapitulação, a vida é, sobremodo, criação! Daí a tarefa assaz importante da história, recapitulando-a para vingar novos brotos de árvore frondosa, enraizada ao solo e se estendendo onidirecionalmente ao infinito.

E porque uma árvore não pode crescer em demanda ao sonho sem se prender ao solo que a nutre e sustenta, é necessário recapitular um pouco da vida que passa indiferente à nossa existência. Assim, é necessário dizer um pouco destas três mulheres, marcando seu exemplo indelével na vida de nosso estado.

Quando Lígia Maynard nasceu, em Belo Horizonte - MG, em 29 de janeiro de 1921, colho nos textos de Osmário Santos (um jornalista de um trabalho extraordinário, resgatando biografias com talento, graça e objetividade, como raros, na imprensa daqui e de fora, sobretudo na paulista, neste campo tão inapetente quanto anêmica), seus pais Augusto Maynard Gomes e Maria Anita Vieira ali residiam, onde o pai servia como oficial do exército.

Espírito telúrico e apegado aos laços familiares, o Tenente Maynard Gomes fez questão de dar a Lígia a naturalidade sergipana. Outros, talvez em pequenez de sergipanidade preferissem uma naturalidade mineira. Não foi o caso. Sergipe para ele era tudo ou quase isso.

Por ter um temperamento rebelde e insubmisso, Maynard, desde jovem, se inserira nos movimentos conspiratórios da caserna, envolvendo-se com diversos colegas e contemporâneos da escola militar, oficialidade que iria participar de várias rebeliões armadas.

Em 1904, aos dezenove anos e ainda cadete, participou da revolta contra a vacina obrigatória, medida considerada autoritária pelos setores mais esclarecidos da sociedade, que preferiam o livre arbítrio de não se deixar vacinar. Na verdade, aos olhos desapaixonados do presente, tratava-se de uma grande idiotia, repelir a verdade científica em meio a uma terrível epidemia. E assim uma revolução se fez contra o cientificismo lúcido do médico Osvaldo Cruz, então ministro de Rodrigues Alves.

A repressão fora vigorosa. Sucederam-se o fechamento das Escolas Militares da Praia Vermelha e do Realengo, a expulsão dos cadetes, alguns sofrendo reprimendas maiores por corte marcial, tendo Maynard retornado a Sergipe, expulso da escola militar.

Tempos depois, num novo governo, Afonso Pena reabriu as escolas militares, reintegrando os alunos, voltando Maynard a academia, saindo aspirante em 1910 e ingressando em 1919 na Escola de Oficiais do Exército, agora como 1º Tenente.
É ali na ESAO, que Maynard participa das insatisfações castrenses, frente à prisão do Marechal Hermes da Fonseca, acontecida em 1922, por conta do escândalo das cartas ofensivas do candidato eleito Artur Bernardes.

O episódio das cartas desonrantes ocorrera no ano anterior, em 1921, em pleno momento político eleitoral. Acusava-se Bernardes de ter escrito textos ofensivos à dignidade da tropa, chamando o Marechal Hermes da Fonseca de “sargentão sem compostura” e o exército constituído de “venais”.

Estas cartas, comprovadas depois como falsas, tinham sido publicadas pelo Jornal do Povo, “barrigada” mal intencionada, só para mostrar que já em priscas eras a imprensa nunca fora de todo santa.

E assim, o boato das cartas falsas, contaminando sobremodo o noticiário, revoltou a tropa, desde a insurreição dos dezoito do forte de Copacabana em 1922, às demais rebeliões acontecidas em 1924, 1926, a formação coluna Miguel Costa–Prestes, e a própria revolução de 1930, com a conseqüente derrubada do governo Washington Luís que sucedera Bernardes.

Se em 1922 Maynard estivesse servindo no forte de Copacabana, por certo seria mais um a fertilizar aquelas areias com o seu sangue de jovem sergipano e insubmisso, e Lígia não teria conhecido o pai, nem participado de seus feitos, sobretudo na história de Sergipe.

No entanto, sendo considerado um rebelde perigoso na ESAO, Maynard é preso e recambiado para a Ilha das Cobras, de onde foge, permanecendo na capital federal, preso sob palavra, e depois enviado para Aracaju.

É neste momento de prisão de seu pai, no quartel do 28º Batalhão de Caçadores, então localizado na Praça General Valadão, onde hoje persistem as ruínas do Hotel Pálace, que Lígia o visita com os irmãos.

No quartel e na insurreição, Maynard adquirira fama de heroísmo, determinação e bravura, colega e contemporâneo de Juarez Távora, Eduardo Gomes, Cordeiro de Farias, Agildo Barata, Siqueira Campos, Juracy Magalhães, Batista Luzardo, Flores da Cunha, João Alberto Lins e Barros, Luis Carlos Prestes, Filinto Miller e tantos outros que se envolveram nos feitos conflituosos da República Velha.

Na madrugada do dia 13 de julho de 1924, então residindo em Aracaju, aqui servindo como tenente no 28º Batalhão dos Caçadores, Maynard, juntamente com o capitão Eurípedes de Lima, os tenentes João Soarino de Melo e Manuel Messias de Mendonça sublevam a tropa, prendendo o seu comandante, o Major Jacinto Dias Ribeiro, e mediante farta fuzilaria, dominam a Policia Militar, apoderando-se das estações telegráficas e telefônicas da estrada de ferro, depondo o governador Gracho Cardoso e assumindo o governo do estado.

A sublevação sergipana fora uma resposta àquela acontecida em São Paulo oito dias antes, comandado pelo General Isidoro Dias Lopes e pelo Major Miguel Costa.

Assim como em São Paulo, o movimento sergipano foi sufocado pelo governo central. Tropas vindas da Bahia e Alagoas comandadas pelo General Marçal Nonato de Faria, extingue o movimento rebelde, tendo Maynard sido preso e recolhido ao próprio 28° Batalhão de Caçadores de onde, mesmo preso, lideraria uma nova rebelião, desta vez em 19 de janeiro de 1926, sendo então ferido na perna e colocado fora de combate, seguindo-se por conseqüência a rápida rendição da tropa.

Da revolta de 1924, Cabral Machado, então menino na Capela, viu o batalhão de cangaceiros, enviado pelo propriaense Cel. Chico Porfírio, que se associara às forças do exército vindas de Alagoas para sufocar o movimento rebelde. Dias depois, o mesmo menino veria o mesmo batalhão retornar cabisbaixo e acabrunhado, fugindo da refrega em Carmópolis. Por verdade ou folclore, contava-se na Capela, que o bando se escafedera nas estradas de Marcação, apenas com um único tirambaço certeiro de canhão, assestado pelo Sargento José Vieira de Matos, conterrâneo da Princesa dos Tabuleiros.

Quanto à defesa da Aracaju rebelde, é histórica a foto de Maynard nas fronteiras abertas na Praia Formosa, hoje 13 de Julho, um dos bairros mais elegantes de Aracaju.

Se a repressão fora sangrenta restara a Maynard e aos demais revoltosos a prisão, a princípio no próprio quartel do 28º BC e depois no Rio e São Paulo.

“Quando meu pai estava preso no Exército, relata Lígia ao Jornalista Osmário Santos, todos os dias, Wellington, meu irmão, e eu íamos levar marmita para o almoço, e passávamos toda à tarde com ele.”

Lígia que não vira o pai desde 1924, só iria vê-lo no ano seguinte, aos quatro anos de idade, justamente no momento do sepultamento de sua mãe, enterro ao qual compareceu o pai, vigiado por forte escolta policial.

E é Lígia que repetia sem jamais esquecer as palavras de seu pai, ditas e repetidas, no enterro: “a mãe para o túmulo, o pai para o cárcere e quatro filhos abandonados”.

Retornando à prisão no 28º BC e desafiando o General Marçal que aqui permanecera como comandante da guarnição federal repressora do movimento, Maynard revolta a tropa em nova refrega em 19 de janeiro de 1926. Era uma tentativa de juntar-se à Coluna Prestes que passava então nas proximidades de terras sergipanas.

Mas o movimento é rapidamente sufocado, tendo Maynard sido baleado e fugindo da prisão, indo para o Rio de Janeiro, onde foi encarcerado e enviado para a Ilha de Trindade.

Neste tempo, Lígia órfã de mãe e com o pai preso, vai morar juntamente com seus irmãos na fazenda Caldas, de propriedade de sua mãe paterna, Tereza Maynard Gomes.

Dos quatro aos dez anos de idade, Lígia ficaria com seus irmãos nas Caldas em Rosário do Catete, criadas agora pela avó paterna, que comungando o mesmo ideal do filho, louvava Luís Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”, comandando a coluna de revolucionários, que percorria o sertão do país, em incursão jamais tão longa neste continente.

Segundo palavras de Lígia, ditas a Osmário Santos e a Adailton Andrade, que a entrevistaram, ela só iria ver o pai com dez anos de idade, tendo Maynard neste tempo, permanecido no cárcere, ora no Rio de Janeiro, ora recluso destinado aos presos perigosos, acampado em barracas inóspitas na ilha de Trindade, tendo aí contraído várias enfermidades, inclusive a beribéri, doença fruto da deficiência nutricional da vitamina B1 no organismo, que provoca fraqueza muscular e dificuldades respiratórias, e pode afetar também o coração, dando origem a uma cardiomiopatia, altamente funesta.

Ou seja; uma doença, plenamente evitável, fruto de proposital mau tratamento, custodiado pelo estado, para dizimar ou arrefecer os inimigos do regime.

Mas se o tempo e as revoltas se sucedem eis que se aproxima 1930 e a revolução se faz gloriosa com Maynard bravamente combatendo em Minas Gerais, para onde fugira, aliando-se a Getúlio Vargas e seus tenentes interventores, ajudando a amarrar as montarias no obelisco da Avenida Rio Branco, a velha Avenida Central do Rio de Janeiro.

Lígia, agora com dez anos, reencontra o pai, festejado e gloriado como herói.  Será interventor federal governando Sergipe de 1930 a 1935. Depois será Ministro do Tribunal de Segurança Nacional, quando julgará o companheiro de outrora, Luis Carlos Prestes, condenando-o inclusive pela, assim chamada, Intentona Comunista de 1935, e pelo assassinato de Elza Fernandes, garota justiçada pela liderança comunista, em mancha incompreensível numa pregação tida então libertária e sem vezos autoritários.

Após esta presença discutível e muito criticada de julgador, sobretudo com a condenação de Prestes, Maynard volta a Sergipe, novamente como Interventor Federal, governando o estado, durante todo o período do Estado Novo, de 1937 a 1945, só saindo com a queda de Getúlio Vargas e a redemocratização de 1945.

Por esse tempo desta segunda intervenção federal, Lígia, contando 16 anos, contraiu matrimônio com José Garcez Vieira, um viúvo de 33 anos, comerciante de automóveis, fabricante de sabão e pecuarista.

José Garcez, mais conhecido por Zezé, era o primogênito de uma série de irmãos Garcez, filhos de Júlio Vieira de Andrade e Isabel Garcez Vieira.

Espírito conciliador e pacífico, Zezé era muito reverenciado pelos irmãos que o chamavam de Pajé, e a todos reunia; Sílvio, Amintas, tabelião respeitado, Décio, banqueiro ameno e compreensivo, Armando, João, o dedicado odontólogo das crianças, cujo consultório era pleno de brinquedos, Paulo, Fernando, o eficiente engenheiro do DER-SE, Luís, o Desembargador, e Isaura, mãe de Julio Prado, o meu amigo dos tempos do Rotary Club Aracaju.

Meu pai, Manoel Cabral Machado, no seu livro “Brava Gente Sergipana e Outros Bravos”, inseriu Zezé Garcez entre os seus Bravos. Ali Zezé aparece como um “Prefeito Correto e Criativo, dotando Aracaju de avenidas calçadas como Ivo do Prado, Augusto Maynard, ampliação da João Ribeiro; urbanização da ilha das cobras, das ruas Japaratuba, Maruim, Sílvio Romero, João Andrade, Simeão Sobral, conservando estradas como a da Atalaia, e abrindo outras como Jabotiana, Anipum, Saco, Lamarão, Jetimana, etc. Construiu escolas como Abdias Bezerra e o Jardim de Infância do Siqueira Campos, além de melhoramento de parques e jardins, e da orla do rio Sergipe.”.

Meu pai fora secretário particular do Prefeito Zezé Garcez e com ele partilhou uma amizade de décadas, companheirismo iniciado quando colegas de pensão, ele estudante do Atheneu sergipense e Zezé, então viúvo, ambos namoravam duas colegas, alunas do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, o colégio das freiras Sacramentinas. Meu pai namorava minha mãe, Lourdes Cabral, e Zezé namorava Lígia Maynard, então adolescente com quinze anos.

Se meu pai era bem mais jovem e como estudante ainda não podia se casar, Zezé, doze anos mais velho e já vitorioso na atividade empresarial, apressa novo consórcio, tendo Lígia, filha do interventor, deixado o colégio com os estudos e os sonhos de normalista, contraindo núpcias aos 16 anos, num tempo em que não se falava de pedofilia como hoje, ou para dizer que as famílias eram menos preconceituosas e a atual pedofilia era tão consentida quanto festejada.

E mais; gerou um casamento feliz e duradouro, cinquenta anos de convivência plena, cheia de filhos, Ana Maria (esposa de Sílvio Renato Garcez, ambos falecidos), Maria Augusta (esposa de meu amigo Luís Benjamim, filho do Dr. Benjamin Carvalho e Dona Hortência, “mensageiros de esperanças” em saudosas memórias), Maria Lígia (advogada, vibrante delegada da SUNAB, tentando controlar os preços em meio à inflação desenfreada e líder defensora dos deficientes auditivos, esposa de Matias Paulino, mãe da doce Liana e de meu amigo Augusto, sempre alegre e de bem com a vida, casado com Titina, filha de Célio e Clarinha, seqüência das famílias Cruz, Morais e Porto), e dos meus colegas do Colégio Brasília, José Garcez Filho (advogado, procurador do estado, casado com Ana Luiza Ribeiro, de tradição comercial e açucareira, pais de Euler, meu primeiro provedor de internet, de Patrícia e de Claudia, colegas dos meus filhos Daniela e Machado no Colégio do Salvador), Júlio Augusto e Alberto, amizades que permanecem sessenta anos passados.

A título de exemplo e curiosidade: o meu amigo Augusto, filho de Maria Lígia e Matias Paulino, e que herdou o nome do bisavô Augusto Maynard, é casado com uma bisneta do Sr. Francisco de Souza Porto. Em vida, Maynard e Chico Porto foram adversários políticos, tendo Maynard, com a revolução de 1930 ocupando o governo, fazendo letra morta a votação “a bico de pena”, como se chamava então, sufrágio que elegera Chico Porto Governador do Estado. Chico Porto, embora não galgando o governo estadual, fora um homem de muitos méritos, políticos e empresariais. Mas, isso não vale contar agora, pois alongaria muito mais as minhas arengas e lengalengas.

No mais, poder-se-á falar que Augusto Maynard colheu algumas derrotas com a redemocratização de 1945. Perdeu uma eleição para o senado, depois em novas alianças logrou vitória, sofreu crítica feroz por ter condenado Prestes no Tribunal de Segurança Nacional.

Prestes fora um ídolo que o decepcionara, e assim externou sua decepção, comparando o Cavaleiro da Esperança com as montanhas. Em discurso dirá então: “Os homens são como as montanhas. Vistas de longe, parecem belas, altivas e altaneiras. De perto; que decepção!”.

De Maynard Gomes, relembro os idos de agosto de 1957, quando Aracaju parou para receber o corpo embalsamado do General e Senador, falecido no Rio de Janeiro. Estou a contemplar o féretro sendo velado na residência de Zezé e Lígia, ao lado de seus filhos José Garcez Filho, Júlio e Alberto, todos meus colegas do Colégio Brasília que também participou do cortejo estudantil. Comentava-se que era o enterro de um herói, e isso me ficou como uma lembrança permanente.

Mas, se me detive a falar da saga de Lígia Maynard, por conhecê-la melhor, e, sobretudo, por amá-la como uma extensão de amizade de minha mãe, é preciso dizer algumas palavras sobre Estelita Vilasboas, esposa do Professor Alcebíades Vilasboas, diretor do Colégio Tobias Barreto.

No grande colégio da Rua de Pacatuba a e a juventude uniformizada em farda verde-caqui recebia ensinamentos dos professores Francisco e Glorita Portugal, Thiers Gonçalves de Santana e Waldemar, cujo sobrenome perdi embora sua imagem me retorne em lembranças, como a do inspetor Mário, musculoso, alegre, sorridente e gentil.

Dona Estelita, esposa do Diretor Alcebíades zelava pelos alunos do velho colégio, internos e externos, como verdadeira mãe. Que o digam os seus filhos verdadeiros; Alda, Alba, Malba e João, meu amigo João Sete Meses, de saudosa lembrança, apaixonado pelo Iate. Estelita inserira todos os filhos nos trabalhos do Tobias, inclusive o genro Raimundo Monte, pai de meu aluno Roberto que deixou as ciências exatas pelas jurídicas, aliado ao gosto pela fotografia.

Quantas histórias e testemunhos desaparecem sobre a educação no Tobias e sobre o processo difícil de formação do Iate Clube de Aracaju, que teve Alcebíades Vilasboas como primeiro comodoro?

Quantas festas, e que belas festas, realizadas com a presença de Dona Estelita ajudando para que tudo corresse bem, com alegria e divertimento?

Assim, a morte de Estelita também empobrece os sergipanos, sobretudo porque há uma degradação nos bancos do velho colégio, que restou pior depois de estatal, e o Iate, que embora esteja bem maior fisicamente, não exibe um acolhimento igual.

Mas, é preciso falar de outra mulher que partiu. Falar de Yeda Mesquita Matos Miranda, filha do comerciante Otaciano Matos, da Casa Cristal na Rua João Pessoa.

Yeda, que herdara do pai a sua compleição mignon, era casada com o Sr. Miranda, alto garboso e forte. O casal fora morar na minha vizinhança, na Rua Senador Rollemberg, esquina com Vila Cristina, talvez sendo o último a chegar naquela região.

Neste tempo suas filhas Tereza Augusta e Silvana eram bem garotas ainda. Por serem bonitas, uma tradição das netas de Otaciano Matos, Tereza casou logo e Silvana de perto lhe seguiu.

Da Sra. Yeda Miranda, creio que se poderia conhecer um vasto relato da atividade comercial da Rua de João Pessoa, desde o tempo em que a mesma era conhecida como Rua do Barão.

Aliás, fora Rua do Barão porque construída pelo Barão do Maroim. Mas, talvez por contingência política, trocaram o nome de Rua do Barão por Rua de Japaratuba, tendo o nome sido repelido pela população e permanecido do Barão.

Mas, que Barão, se o Barão do Maroim virou avenida?

Assim, nos idos dos anos trinta, por beneplácito do interventor Maynard Gomes, o pai de Lígia, por moléstia epidêmica nacional, a Rua do Barão virou Rua João Pessoa, local de melhor ponto comercial na minha meninice e adolescência e que muito se degradou nas últimas décadas, sobretudo com as inovações dos calçadões, do estreitamento das ruas centrais e dos parquímetros.

Yeda e seu irmão Dermeval testemunharam toda uma história do comércio da Rua de João Pessoa, onde seu pai Otaciano possuía um estoque de louças e baixelas, prestando à cidade um serviço notável neste setor.

Eu mesmo, nos idos de 1972, ali comprei um conjunto de louça de gravura verde, outro de copos cristais Bering, e um faqueiro de aço inoxidável que ainda conservo. Compras feitas a Dermeval Matos, o irmão de Yeda e observada de perto pelo Senhor Otaciano, que era um baixinho simpático e alegre.

De Yeda direi também, que cumpriu muito bem a sua função escolhida de esposa e mãe.

Mas, por que louvar isso, nestes tempos em que as tarefas de esposa e mãe são de pouca valia?

Eis aí uma grande degradação dos novos tempos, com o divórcio, os casamentos sucessivos e a desorganização do lar.

Infelizmente há muitas mulheres que não sabem conservar os seus homens e acham isso uma grande conquista feminina, preferindo viver sozinhas ou em encontros fortuitos de excedente aridez.

Não há homens perfeitos: Eu costumo dizer que “O marido perfeito era o espermatozóide que perdeu a corrida”. Uma frase que repito como minha, mas que, por obviedade, talvez não seja minha nem de ninguém.

Mas, que terrível! Há mulheres em excesso que não conseguem se prender ao lar e ao marido, e o casamento norteado de amor festivo e sorridente, resta discussão, ofensa e separação, com apropriação indébita dos presentes nas bodas recebidos.

Louvo, portanto, as mulheres que sabem prender os seus maridos, e que envelhecem com eles, iguais à minha Tereza, pacificadora das minhas angústias e imperfeições. Iguais a Yeda e as suas filhas Tereza Augusta com Antônio Carlos Franco, de saudosa memória, e a Silvana com Jorge Alberto Prado, gerando bisnetos e trinetos de Otaciano.

E as outras netas também, do veio de Dermeval e Aída; Denise, Solange e Ivanise, e as suas amigas e vizinhas da Rua Itabaiana; as filhas de Milton Franco e Noemia; Ninha, Ana, Marta, Ana Lúcia, Sônia e Olívia, todas boas mães, boas esposas e algumas já avós. E outras tantas e tantas outras, abençoadas mulheres, plenificando a vida de seus esposos e de sua família.

Mas, é preciso agora falar de Maria Thetis Nunes a grande mestra, falecida em 25 deste outubro doloroso.

Maria Thetis Nunes nasceu em Itabaiana, filha de José Joaquim Nunes e Maria Anita Barreto há oitenta e cinco anos passados.

Estudou no Atheneu Sergipense, ligando-se aos professores Artur Fortes e José Calazans, de onde se transferiu par Salvador–BA, onde se graduou em História e Geografia na Faculdade de Filosofia da Bahia. Recém graduada, em 1945, Thetis presta concurso para a cátedra do Atheneu, defendendo a tese sobre a influência árabe na civilização ocidental, e em particular na Europa ibérica e no Brasil.

Foi Diretora do Atheneu, estudou no ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Chegou a ser adida cultural do Brasil na Argentina, retornando a Aracaju, por conta do Regime Militar iniciado em 1964.

Sou seu aluno de Geografia em 1865 no Colégio Estadual de Sergipe, o antigo Atheneu. Estou a relembrar uma mestra de aulas inesquecíveis.

Com a fundação da Universidade Federal de Sergipe, a professora Thetis, já lecionando na Faculdade Católica de Filosofia, é incorporada como professora catedrática de História.

Ali ficará até sua aposentadoria, pesquisando e publicando, orientando teses e monografias, suscitando o estudo minucioso de gerações de jovens, oportunidade em que freqüentou diversas bibliotecas, como a Casa do Tombo em Lisboa, tudo investido de próprio bolso e sem maior ajuda.

Foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe por três décadas e membro notável do sodalício da Academia Sergipana de Letras.

É vasta a obra historiográfica da Profa. Thetis, desde sua tese de concurso do Atheneu em 1945, republicada em 2002, “Refazendo a História – Os Árabes, sua contribuição à civilização ocidental”.

Colho em Luis Antônio Barreto em seu primoroso Personalidades Sergipanas as obras de Thetis: Ensino Secundário e sociedade brasileira, 1962; A Política educacional de Pombal e sua repercussão no Brasil, 1983; História da Educação em Sergipe, 1994; A Educação na Colônia: os Jesuítas, 1997; Silvio Romero e Manoel Bonfim. Pioneiros de uma ideologia nacional, 1976; Manuel Luiz Azevedo d’Araújo, educador da ilustração, 1984; Carvalho Lima Junior, 1986; Felisbello Freire, o historiador, 1987; João Ribeiro, o intelectual de muitos facetamentos, 1988; Tobias Barreto e a renovação do pensamento brasileiro, 1989; A contribuição de Felisbello Freire à historiografia brasileira, 1996; O sergipano Gilberto Amado, 1997; Alberto Carvalho é primordialmente um artista, 1998; Sergipe no Processo de Independência do Brasil, 1973; Ocupação Territorial da Vila de Itabaiana: a disputa entre lavradores e criadores, 1876; O ciclo do gado em Sergipe, 1978; História de Sergipe a partir de 1820, 1978; Qual o significado do 24 de outubro?, 1978; Inventário dos documentos relativos ao Brasil existentes no Arquivo histórico ultramarino, 1981; As culturas de subsistências em Sergipe; a farinha de mandioca, 1987; Fundamentos Econômicos da Literatura Sergipana, 1989; Insurreição de Santo Amaro das Brotas, 1992; O poder legislativo e a sociedade sergipana, 1994; A contribuição da imprensa à História da província de Sergipe, 1994; As Câmaras Municipais, sua atuação na Capitania de Sergipe D´El Rey, 1995; Sergipe Colonial I, 1996; e tantos outros artigos e livros

De Thetis Nunes porque lecionou bastante e escreveu muito mais, sua obra permanecerá se os homens assim o desejarem, republicando-a por necessária. Ninguém pode almejar um futuro vibrante esquecendo em ignorância o seu passado. É preciso que a obra de Thetis não morra nos sebos, atacada por traças e cupins. Que a juventude possa se nutrir com a sua proficiência e a sua inesgotável capacidade investigativa de colher relatos e documentos. Que lhe sigam na busca frenética de provas e contraprovas para a elucidação da história como ciência.

Em Thetis, permanece sobremodo, uma tarefa de serviço no processo de formação das novas gerações. Que elas surjam por seqüência da existência, mas que não se degradem nos caminhos dourados ou nacarados da ignorância de sua história. Este era o seu desejo, e a sua luta.

Como mulher Thetis deixou muitos filhos, seus milhares de alunos e suas sobrinhas Anita e , as filhas do irmão Fernando com Rina..

Que Deus receba no seu seio estas grandes e santas mulheres!

Texto reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs/odilonmachado